terça-feira, 30 de setembro de 2008

O Último

Agora sim, o último texto da série. Sim, só da série, ainda não sei se o blog continuará. Imagino que sim.

Como iniciei tudo daqui de Porto Alegre, de onde escrevi o primeiro texto, achei por bem finalizar aqui também.

Sai daqui falando de desapego, vocês lembram. Volto e falo de liberação. Esta é a sensação. Sensação de que é possível, de que não é nada demais, de que, assim como foram dois meses, poderiam ter sido mais, nada aconteceu por causa disso.

A vida continua como sempre. Porto Alegre, pelo que vi, mudou quase nada. E assim é a vida, embora, às vezes, pensemos que não, que somos imprescindíveis. Não, não somos, e isto é bom. Esta é a boa notícia: ninguém faz muita falta, embora todos façam.

Esta é a sensação de liberação que falei: podemos ir, podemos voltar, nada mudará por causa disso. Se algo muda, pelo menos creio que deva mudar, é quem vai, quem volta, quem se libera.

Hoje almocei num restaurante que costumo ir. Novidade: estava tudo igual, mesmos garçons, mesmas mesas, mesmo cardápio de terça-feira servido.

E aqui está o perigo da liberação: voltar à mesmice, à estagnação, não só de ações, mas de percepções, de sentimentos, de vida.

Em casa, de novidade mesmo, só a alegria do Pinóquio, ao me ver. Sim, ele cuidou muito bem da minha flor de lótus. Xangô e Oxum me receberam de braços abertos.

Pensei em, neste último texto, mudar a frase final, mas não acho que seja justo com ela, afinal pode ser um sinal do que acontecerá, não sei. De qualquer forma, seguirei com ela, quem sabe está certa.

Também aproveito para informar que os álbuns do Orkut e do Picasa estão atualizados. No Picasa tem mais fotos e com qualidade um pouco melhor. O endereço, vocês sabem, está no final do email e tem um link no blog também.

Muito aconteceu, nem tudo relatado, tudo vivido. De bom e de ruim, conforme o foco que se queira dar. Nem tudo, vocês sabem, é literal. Desde o início avisei que não tinha compromisso com o ‘real’, não sou guia de turismo, apenas tento escrever e usei esta viagem para praticar um pouco.

Agradeço a paciência e o carinho de vocês durante estes dois meses, de coração.

Fui e voltarei.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A Volta

Ontem, quando o avião decolou, não identifiquei o sentimento. Não sei se há nome pronto e próprio para ele.

Por voltar, alegria, ou algo parecido com isto. Uma sensação boa pela volta e por rever pessoas amadas, mas, principalmente, por poder voltar. Há quem não possa.

Por partir, sensação de ainda ter deixado algo para trás, que nem sei se sei o nome, acho que sei. Sensação de que ainda falta algo a se ver, a se fazer. Sensação de que ainda há muito caldo na laranja.

O avião decolou e senti, naquele momento, o final da viagem. Parece que, até um minuto atrás, tudo fazia parte, mas dali em diante, não.

Agora era só o voltar. Com alegria, como já disse, mas com um sentimento forte de compromisso. Com o que, ainda preciso descobrir.

Achei significativo que meu assento fosse justamente o da saída de emergência. Não só pelo maior espaço para as pernas, mas por ser uma saída, para o caso de necessidade, para uma saída súbita.

Creio que foi um sinal. Posso estar num vôo, num caminho, certo ou não, mas há sempre uma saída, em caso de emergência.

Era como se, na minha partida, de certa forma, me dissessem: a porta está ai, do teu lado, “em caso de emergência, remover a tampa”.

Já no Brasil, no aeroporto, não havia o boné me esperando, como já sabia, mas estavam meus irmãos. Não que substituam, mas por serem insubstituíveis também.

Assim como, no primeiro texto, no dia 04 de agosto, falei de minha nave que ia soltando os supérfluos e me deixando apenas com a cápsula de sobrevivência, agora, de certa forma, faço o caminho contrário e retomo meus supérfluos aos poucos. Espero que se mantenha claro para mim o que é supérfluo, o que realmente é importante.

Agora só falta o último trecho da viagem.

Fui e voltarei.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Fui

“a viagem só faz sentido, se há volta”

Há uns dias uma amiga me escreveu e disse que faria uma campanha para eu ficar mais tempo por aqui. Não sei se ela gosta do que escrevo, ou se queria mesmo era manter a distância. De qualquer forma, a campanha não funcionou.

Daqui a pouco vou para o Aeroporto pegar meu vôo de volta para o Brasil, para os braços da ‘mãe gentil’ (nem sempre tão gentil assim).

Foram seis, quase sete, semanas de bastante estrada, cidades novas, conhecimentos e descobrimentos. Nem todos estavam aqui, mas foram descobertos por aqui.

Separei estas quatro imagens, para formar este mosaico: uma do dia que cheguei, outra de anteontem, e mais duas de dois lugares dos muitos que gostei, de momentos em que me encontrei: La Coruña e Veneza.

Se volto como vim, não sei, provavelmente não. Creio que ninguém volta igual, quando realmente viaja, quando realmente se deixar ir ao encontro do novo, do desconhecido e aberto ao que virá. Não falo somente de viagens geográficas, é óbvio.

Mais do que a viagem em si, do que o destino, ou ponto turístico a se conhecer, creio que o principal é o ir e voltar, ou melhor, o como ir e o como voltar.

Ir livre, sem muitas expectativas, sem compromissos e roteiros totalmente pré-definidos. E lá, onde estiver, pode ser até na sua casa, no seu trabalho, viver lá, viver o dia, o momento, o lugar, as pessoas dali. E voltar. Sim, a viagem só faz sentido, se há volta, senão não é viagem, é mudança, ai é outro assunto.

Ir, como disse, sem compromisso, mas sabendo que voltará, que a bagagem que foi, deverá voltar. No meu caso, vim com uma mochila e me propus a voltar só com ela, na seguinte condição: para ir algo novo, algo velho deveria ficar. E irão algumas coisas novas.

Não, este texto ainda não é uma despedida.

Fui e voltarei.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Como não falar de futebol?

Nelson Rodrigues e outros tantos talentosos estão cobertos de razão. Não há como escrever sobre o cotidiano, sobre emoções, sem falar em futebol, pelo menos, não um brasileiro.

O que acrescentaria é que não deve ser só para brasileiros. Pelo que vi ontem, aqui em Milão, a paixão pelo futebol é grande em outros lugares também.

Já assisti outros esportes em ginásios cheios, vôlei com a seleção, jogo de basquete da NBA e outros, mas nada é tão emocionante, nada se compara a uma partida de futebol.

Pode ser pelo fato de eu ser brasileiro, não sei, mas ontem no jogo entre Milan e Lazio, sem nenhum envolvimento maior, passei momentos realmente intensos, de vibração e emoção pura. Nem tanto pelo jogo, que, por sinal, foi ótimo, mas pela torcida, pelos cantos, pela agitação em cada momento, mesmo há mais de uma hora antes do início da partida.

Gostaria de ressaltar alguns pontos que observei. É claro que foi apenas uma partida, então não posso garantir que é sempre assim, mas ontem foi:

Primeiro: a venda de ingressos é feita somente mediante a apresentação de documento com foto. O mesmo deve ser apresentado na hora de entrar no estádio. Seu nome e o número de seu documento são impressos no ingresso, que, obviamente, tem lugar definido para cada um sentar. Ou seja, a administração do estádio tem como saber quem está sentado em cada um dos lugares do estádio, além de ser, imagino, quase impossível ter cambista.

Outra observação: não é permitida a venda de bebidas alcoólicas no estádio. Além disso, vi um policial retirar um torcedor da fila para comprar ingressos, porque ele estava aparentemente bêbado. Sim, aparentemente bêbado. Não foi preciso bafômetro, nem nada. Ele foi informado que não poderia assistir o jogo naquelas condições e pronto.

Não vi nenhuma torcida organizada do Milan, nem da Lazio, e mesmo assim o estádio estava cheio e todos cantavam seus hinos, seus gritos de guerra e congêneres. Ou seja, não fazem falta nenhuma.

Mesmo assim, imagino que deva haver confusões, ontem não vi nenhuma, mas, assim, imagino que muitos problemas comuns no Brasil devam ser evitados.

E, sim, eles idolatram os jogadores. Pelo que senti, muito mais do que no Brasil. E, apesar de achar meio ridículo este bairrismo, foi muito bom ver um gol do Pato e outro do Kaká e algumas bandeiras brasileiras sendo agitadas.

Fui e voltarei.

domingo, 21 de setembro de 2008

O Fato e a Foto

Algo que tenho notado e que se repete em todas as cidades por que passei é a ânsia das pessoas, turistas principalmente, por fotos.

Não sei se é pela facilidade da fotografia digital, que praticamente não gasta nada e que permite excluir as fotos ruins depois, mas tenho notado, e isto não é desta viagem, que muitas vezes, para muitos, é mais importante a foto do que o fato.

Tudo pára, ninguém pode passar na frente, o sorriso deve ser congelado, até que a foto fique pronta.

Cenas cômicas, para mim, e comuns, é ver casais discutindo antes da foto, principalmente quando o fotografado resolve que entende de fotografia mais do que o ocasional fotógrafo e fica, mesmo mantendo a pose e o sorriso, dando instruções para quem vai fotografar. Às vezes instruções detalhadas de posição, ângulo, flash, ou seja, quem está com a máquina na mão, só deve ter a capacidade para apertar o botão, e olhe lá, provavelmente tremerá.

Também comum são pais e filhos de cara amarrada, que, por um segundo de ilusão que ficará para a eternidade, dão sorrisos e abraços afetuosos.

Há casos de pessoas que vêem outras fotografando algum edifício ou obra e fotografa também, depois pergunta o que é. Ou seja, ele quer guardar uma recordação de algo que nem sabe o que é, mas que deve ser interessante, afinal outros estão ali fotografando também.

Não estou pregando nada contra a fotografia, por favor, também gosto e muito de fotografar. Se faço alguma crítica aqui é à importância que se dá à foto e ao que chamo de o fato.

Os casais, os pais e filhos, e outros, não querem estar bem um com o outro, só querem uma foto bonita. Outros não se preocupam em saber sobre o que estão vendo, sobre o lugar onde estão, mas precisam tirar fotos. Sinceramente, me parece, muitas vezes, que há quase uma histeria generalizada pela foto.

Mas, deixa isso pra lá. Vamos falar de algo mais importante: hoje, às 20:30, aqui em Milão, 15:30 no horário brasileiro, irei ao estádio de San Siro assistir Milan e Lazio. Se o jogo for transmitido por algum canal, vocês assistirem e verem alguém no meio da torcida do Milan, com a camisa do Palmeiras, pode acenar, que sou eu mesmo.

Fui e voltarei.

sábado, 20 de setembro de 2008

Na Chapa

Hoje eu falaria de outro assunto, já estava tudo pronto e quase encaminhado, quando Milão me surpreendeu.

Já estava quase na parada de ônibus, para voltar para o hostel, quando deparo com uma passeata. Não, vocês não estão entendendo. Era uma senhora de uma passeata. Não exagero se digo que eram milhares de pessoas.

O motivo oficial da passeata foi a morte de dois jovens. Pelas fotos, negros, pelos nomes, árabes, ou da região, pois se chamavam Abdul e Abba. Se entendi, foram mortos por policiais ou por seguranças, não sei direito.

O fato é que a passeata gritava palavras de ordem contra o que chamaram de política de medo contra imigrantes, xenofobia e outros preconceitos que, infelizmente, parecem tão comuns e mais explícitos aqui na Itália.

A passeata era composta por negros, sul-americanos, árabes, homossexuais e outros discriminados. E, gente, posso garantir, era muita gente.

Tomaram toda a praça do Duomo e a Via Vitório Emanuelle. Fiquei parado numa esquina, enquanto passavam e tive a sensação de que estavam dando voltas na praça, pois não paravam mais de passar.

Na frente da Galeria Vitório Emanuelle, empanados se assustavam e voltavam para dentro com cara de assustados e sorriso meio amarelado, sem saber como se comportar frente a este imprevisto que não deve constar nos seus manuais de conduta.

De qualquer forma, corrijo minha impressão de ontem e de hoje, até agora há pouco. Se em Milão há muito bife à milanesa, vi que aqui também tem muito bife na chapa, do jeito que estiver, com gordura, osso e nervo e, posso garantir, a chapa estava quente.

Fui e voltarei.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

À Milanesa

Estão todos à procura de alguém que os procure

Gênova amanheceu com uma chuva fina e melancólica. Previsão de se manter assim por mais dois ou três dias.

Resolvi seguir viagem e vim para Milão, meu último destino. Cheguei aqui e encontrei um lindo dia de céu azul. Perfeito.

Muitas das pessoas com quem falei, antes da viagem, me disseram para não perder tempo com Milão, pois aqui não tinha nada para ver. Como já estou cansado de ver novidades, achei que aqui seria o destino perfeito.

Mas me enganaram. O que eu já vi nestas poucas horas de Milão... vi até gente normal.

Sabia que aqui era a capital mundial da moda, mas, mais do que isso, vi que aqui é a capital dos rostos bonitos e dos corpos magérrimos, à procura de alguém que os procure.

A moda é ser aparentemente extrovertido e manter um sorriso no rosto, o tempo todo. Vai que rola uma foto.

Pelo menos, na meia dúzia de caminhadas, metrô e ônibus, que fiz até agora, foi o que mais vi.

O bom disso é que a simpatia daqui tem sido quase igual à francesa, sempre com um sorriso no rosto, sempre tentando entender, falar outras línguas... se o restante da Itália descobre são capazes de expulsar Milão do país.

Nesta primeira volta, acho que descobri o porque do nome “à milanesa”. É perfeito. As pessoas aqui me pareceram todas à milanesa. Não importa muito o que há por dentro, se há gordura, nervo, carne bem ou mal passada, por fora é uma casquinha crocante e boa de se ver. Fica bonito para se por à mesa.

Para mim, como turista, estou adorando. É tudo bonito, vitrines lindas, pessoas lindas, cheirosas (isto é muito importante aqui na Europa) e simpatia.

Fui e voltarei.